Parashá

Torah

Parashá Noach – Gênesis - 6:9 – 11:32

Resumo:

Na Parashá anterior, Berehist, vimos que D’us criou o mundo e deu ao ser humano a missão de transformá-lo em Sua morada; em seguida, a humanidade rejeitou essa missão e abandonou-a em massa.

Sendo assim, esperaríamos que o próximo ato desse drama Divino fosse a origem do povo judeu, a nação designada para cultivar a consciência da Divindade e fazer a humanidade voltar a viver a vida na presença de D’us.

A ocasião mostra-se propicia; o palco esta pronto; todos os dispositivos cênicos devidamente colocados; parece haver um candidato apropriado para o papel principal de progenitor desse novo povo; a parashá Bereshit termina sugestivamente com as palavras: “Noé achou graça aos olhos de D’us”( Gênesis 6:8 ).

Contudo, a Torá mantém o suspense, adiando a gênese do povo judeu para a parashá seguinte. Evidentemente, algumas bases ainda precisam ser assentadas antes que o mundo esteja preparado para o adento de um povo eleito. A descrição detalhada desse trabalho de estabelecimento dos alicerces é o tema da parashá Noach, que leva o nome de seu protagonista. Noé foi o homem escolhido por D’us para construir a arca, por meio da qual a vida humana e animal seria poupada do Dilúvio que extirparia a espécie humana, incorrigivelmente iniqua, possibilitando-lhe recomeçar.

Em que consistiu essa obra de implantação das fundações ? Que medidas adicionais tinham de ser tomadas antes que o mundo pudesse principiar a escalada rumo ao nascimento do povo judeu e a entrega da Torá no Monte Sinai ? Para tratar dessa questão, precisamos antes examinar com mais atenção o titulo desta parashá, uma vez que, como já mencionamos, os nomes das parashiot revelam sua mensagem e lição essencial.

A palavra (neste caso, o nome) Noach significa “descanso” e “tranquilidade”. No entanto os eventos desta parashá não são nem um pouco sossegados e serenos. A inundação cataclísmica que destrói, de modo implacável e indiscriminado, toda forma de vida da terra certamente é o epítome da conturbação e da inquietude, como também o são os dois outros episódios importantes da parashá: a maldição de Ham e a dispersão forçada da humanidade provocada pela Torre de Babel.

Todavia, se observarmos o propósito subjacente a esses incidentes e suas consequências, veremos que o nome Noach na verdade é bastante adequado. Por mais fisicamente e turbulento que o diluvio tenha sido, sua finalidade era curar o mundo de um estado espiritual ainda mais problemático, que o fez necessário. O mundo pré-diluviano ainda era relativamente novo, e todas as formas de vida possuíam o pleno vigor da juventude – como evidencia, notavelmente, a extraordinária longevidade humana que caracterizava essa era. Porém, essa força era frágil: quando se desenvolviam e amadureciam, as criaturas tornavam-se inflexíveis, quase imutáveis; era praticamente impossível que se modificassem. Isso acontecia na dimensão espiritual não menos do que na física; assim que o caráter da pessoa se formava e o seu comportamento se constituía, era extremamente difícil que se alterassem. E, visto que as normais sociais ficavam cada vez mais corruptas, a maioria esmagadora da humanidade mergulhou em uma espiral descendente de degeneração dos valores e atitudes morais.

O Diluvio mudou tudo isso. As águas avassaladoras amoleceram a terra não só fisicamente, mas também espiritualmente, tornando a realidade mais maleável, mais flexível, mas receptiva a mudança. No “novo mundo” que Noé contemplou ao sair da arca, os ventos do arrependimento ( teshuvá ) sopravam livremente, acessíveis a todos, por mais cronicamente corrupto que viesse a ser o seu comportamento.

Portanto, ao declarar, após o Dilúvio, “que nunca mais haverá um dilúvio para destruir a terra, D’us não estava aceitando que as pessoas continuassem a pecar como antes, nem admitindo que inundar a terra fora um erro grave que Ele jamais repetiria. Na verdade, D’us estava dizendo que, com o alagamento, Ele modificara a realidade de tal forma que nunca mais seria necessário provocar um Dilúvio – não porque a natureza do ser humano tivesse melhorado, e sim porque Ele lhe fornecera um mecanismo novo, que poderia ser usado para contrabalançar e até erradicar os efeitos do comportamento negativo.

Como tal, o Dilúvio foi um passo altamente significativo e crucial para a realização do objetivo da Criação, a saber, a promoção e disseminação da consciência Divina no mundo até que, por fim, ela seja transformando no lar natural de D’us. Tratou-se também, portanto, de um acontecimento decisivo na colocação dos alicerces para a gênese do povo judeu. A Torá deve transmitir ao mundo a mensagem esperançosa de que nunca é tarde demais; D’us está sempre na expectativa de receber-nos de volta de braços abertos; podemos começar de novo a cada momento e até ir mais longe, cumprindo nossa missão Divina com um sucesso que antes julgávamos inimaginável.

A lição desta Parashá mantém-se perpetuamente relevante para o ser humano. Quando enfrentamos uma situação particularmente difícil ou passamos por uma fase conturbada e turbulenta em nossa vida, nos ajudaria bastante relembrar que, assim como o Dilúvio, elas tem o propósito de nos purificar e refinar. Seguindo o exemplo de Noé, que não se apavorou diante da inundação iminente e permaneceu firme, podemos não só escapar ilesos da provação, mas realmente erguer-nos para colher os benefícios potenciais que lhe são inerentes e até sair fortalecidos. Concentrando-nos na oportunidade oferecida pelo desafio, e não na dificuldade superficial que defrontamos, transformamos as chuvas destruidoras nas “águas de Noé” – serenas e tranquilas.

E se, como Noé, tivermos sabedoria para usar a experiência de maneira proveitosa, poderemos ajudar a tornar o mundo inteiro um ambiente mais favorável a consciência Divina, aproximando-o da realização definitiva de seu verdadeiro ideal.

A HAFTARÁ DE NOACH ESTA EM : ISAÍAS 54:1 – 55:5