Parashá

Torah

Parashá Toledot ( que significa “descendentes” )– Gênesis - 25:19 – 28:9

Resumo:

OTema da Parashá Toledot é Isaac, herdeiro e sucessor de Abraão. Isaac foi o filho da velhice de Abraão e Sara, pelo qual eles haviam rezado e esperado durante décadas e em quem depositavam todas as esperanças de continuidade de sua obra, para que o ideal de transformar o mundo no lar de D’us não se extinguisse.

Abraão e Sara fizeram enormes sacrifícios a fim de prepará-lo bem para seu futuro papel e arranjar-lhe uma esposa adequada, de modo que ele, por sua vez, pudesse perpetuar sua herança e visão.

Contudo, a imagem que a Torá nos apresenta de Isaac parece, de muitas maneiras, a antítese de tudo que sabemos a respeito de seu pai. É verdade que Isaac não é menos devotado que Abraão ao cumprimento da vontade de D’us e até se mostra disposto a sacrificar a própria vida, sem hesitação, por ordem divina. No entanto, no relato que a Torá faz da vida de Isaac, não vemos a expansão do formidável empreendimento de seu pai de educar a humanidade, nenhum ramo novo no projeto da família. Diferentemente de Abraão, Isaac não trava batalhas grandiosas, quase não se envolve nos assuntos do mundo, nunca sai dos limites da Terra Santa e não toma mulheres nem servas adicionais para gerar mais filhos além dos dois que lhe foram dados por sua única esposa. Ele parece contentar-se em, passivamente, deixar a vida desenrolar-se á sua volta, em vez de iniciar ativamente os acontecimentos e criar as circunstancias, deixa-se afetar passivamente por eles. De fato, sua existência é tão destituída de ação que, embora tenha sido o Patriarca que mais tempo viveu, ele é o personagem central de apenas uma Parashá ( em contraste com as 3 de Abraão e Sara e as 6 de Jacó ). A única atividade prática de Isaac exposta pela Torá é a escavação de poços. Seria esse – surpreendentemente – o único feito de que o ilustre herdeiro do legado de Abraão era capaz ?

Por outro lado, não há na Torá nenhuma indicação de que alguém – Abraão, ou mesmo o próprio D’us, estivesse de alguma forma insatisfeito com a evidente passividade de Isaac. Parece haver um entendimento tácito de que ele estava fazendo o que devia.

Calmamente, sem alarde, Isaac continuou o empreendimento do pai, não imitando o comportamento dele, mas levando-o ao nível seguinte, mais elevado.

Isaac, e muito provavelmente Abraão também, compreendeu que, por mais revolucionário e necessário que fosse, o trabalho de Abraão, por natureza, tinha efeito limitado. Seu método de disseminação da consciência Divina era espalhá-la por toda parte – atingir o publico mais amplo possível, sem fazer exigências prévias aos ouvintes.

Realmente, essa era a única maneira de tornar conhecida a sua mensagem, pois, como o mundo ainda não estava interessado no que ele tinha para dizer, a imposição de condições teria, desnecessariamente, restringido sua influência. A desvantagem dessa abordagem era que, por não requerer nenhuma preparação a sua audiência. Abraão não produzia nela uma mudança permanente.

Portanto, Isaac percebeu que a abordagem responsável pelo sucesso extraordinário do programa de seu pai era também, paradoxalmente, a maior ameaça a sua perpetuação. Ele compreendeu que, para que esse empreendimento tivesse êxito continuo e garantido, sua disciplina, severidade, rigor e respeito a padrões (guevurá) teriam agora de complementar a bondade (chessed) de Abraão, assim como o particularismo de sua mãe tivera de complementar o universalismo de seu pai.

Isaac introduziu no projeto de Abraão o ideal do autoaprimoramento, de encorajar o discípulo a assumir a responsabilidade pelo estabelecimento da base espiritual antes de escutar a lição do mestre. Enquanto a forma de atuar de Abraão pode ser concebida como um vetor descendente, que traz Divindade “para baixo”, até os degraus inferiores da humanidade, a estratégia de Isaac pode ser descrita como um vetor ascendente, que eleva as pessoas, habilitando-as a integrar níveis cada vez mais altos de consciência Divina a suas vidas.

Neste aspecto, Isaac foi o modelo perfeito para a humanidade. Nós o encontramos meditando no campo, evitando conflitos superficiais com os vizinhos, esforçando-se constantemente para refinar-se e sempre concentrado em seu interior. Dessa maneira ele atingiu uma perfeição espiritual tão completa que, combinada com sua prosperidade material, atraia as pessoas instintivamente para ele. Isaac não tinha necessidade de procurar discípulos: os discípulos o procuravam. Sua espiritualidade carismática conquistou até os poderes reinantes, que anteriormente o haviam banido de seu pais por ciúme de seu sucesso e numero crescente de seguidores.

É por isso que esta Parashá denomina-se Toledot, que significa “descendentes”. Adão, Noé, Sem , Abraão, Jacob, e outros – um dos principais personagens do Gênesis, tiveram descendentes, e a Torá julga conveniente enumerá-los. No entanto, apenas a descrição da obra de Isaac, registrada na única Parashá que o focaliza, é intitulada Toledot. Porque só Isaac personificou e pregou a abordagem que garante resultados duradouros, que gera discípulos – “filhos espirituais” – capazes de andar com as próprias pernas.

A lição que devemos aprender da vida de Isaac é que, apesar de ser verdade que devemos primeiramente imitar o trabalho de Abraão, espalhando a consciência Divina o máximo possível, ao mesmo tempo não podemos negligenciar o nosso desenvolvimento espiritual. O sucesso na disseminação da consciência Divina depende de nosso crescimento pessoal, pois não podemos querer inspirar os outros se permitimos que nossas próprias fontes espirituais sequem. Ao contrário, quanto mais nossa audiência sentir que levamos a sério o autoaprimoramento, mas ela será arrebatada pelo nosso entusiasmo, mesmo que ele lhe seja transmitido apenas subliminarmente.

A HAFTARÁ DE TOLEDOT ESTA EM : MALAQUIAS 1:1- 2:7