Parashá

Torah

Parashá Vaierá –Gênesis 18:1 – 22:24

Resumo:

AParashá Vaierá é a segunda de duas parashiot dedicadas exclusivamente á vida e época de Abrãao. Embora o encontremos pela primeira vez no final da Parashá Noach e seus últimos anos sejam descritos na Parashá Chaiei Sara, Abraão aparece nesses trechos apenas preparando-se para realizar os seus feitos ou já no crepúsculo da existência. Em Noach, nós o vemos reverter o curso degenerado da história da humanidade que o precedeu e assim ter o mérito de ser chamado por D’us para dar início a história do povo escolhido; em Chaiei Sara, ele assegura a perpetuação de sua herança, transmitindo-a a seu sucessor. Só Lech Lechá e Vaierá concentram-se diretamente no cerne da vida de Abraão.

O relato em duas parashiot dos principais acontecimentos de sua vida indica que ela se compõe de duas fases distintas. De fato, quando analisamos os eventos narrados nesses parashiot, temos a impressão de que Abraão torna a fazer em Vaierá praticamente tudo que ele fez em Lech Lechá. Em ambas, primeiramente ele recebe uma revelação Divina e obtém a promessa de descendência; nas duas, sua esposa Sara é raptada por um rei gentio; e em cada uma, ele tem um filho, expulsa Hagar e estabelece pactos; seu comportamento integro é contrastado com a conduta imoral de seu sobrinho Lot; e ele defende as cidades da planície – Em Lech Lechá, de ataques humanos, em Vaierá, do decreto Divino provocado pela depravação de seus próprios habitantes. É como se Abraão tivesse de repetir todas as experiências da parashá anterior – sua primeira “vida” ou grau de existência – porém em outro plano, a fim de infundir em suas realizações passadas um novo nível de consciência Divina.

Uma vez que, como sabemos, o nome da parashá incorpora a essência de seu conteúdo, o âmago de cada uma dessas fases da vida de Abraão deve estar refletido na palavra designa a respectiva Parashá.

A circuncisão é o acontecimento que divide a vida de Abraão em dois períodos espiritualmente diferentes. Ela ocorre bem no fim da parashá Lech Lechá, de modo que sua vida como judeu circunciso só principia em Vaierá. Segue-se, portanto, que a existência de Abrãao antes da circuncisão caracteriza-se por Lech Lechá – “vai para o seu verdadeiro eu”, enquanto que depois da circuncisão seu traço distintivo é Vaierá “ D’us lhe apareceu”.

Em Lech Lechá, Abraão avança sozinho, subindo continuamente a escada do progresso espiritual até onde os esforços humanos podem conduzi-lo. Em Vaierá, D’us lhe aparece e o eleva a um nível espiritual fora do alcance do empenho humano.

É verdade que D’us apareceu a Abraão três vezes na parashá Lech Lechá, mas foram aparições veladas e vagas em comparação com a Sua manifestação em Vaierá. A razão disso é bastante evidente: até a circuncisão, a ascenção de Abraão, como dissemos, era limitada pelas restrições de sua natureza humana. Ele só podia ir até onde sua mente e seu coração o levassem. Era, portanto, impossível que D’us Se revelasse “diretamente”. Abraão só era capaz de conhecer a Divindade pelo prisma de seu próprio ser.

O que havia na circuncisão que mudou tudo isso, permitindo que Abraão transcendesse os limites de sua condição humana e vivenciasse uma revelação direta de D’us ?

Primeiramente, a circuncisão foi o primeiro mandamento que Abraão cumpriu obedecendo a uma ordem explicita de D’us. A Torá e suas tradições já eram conhecidas mesmo antes do tempo de Abraão, e ele as observava fielmente, da melhor maneira possível. Mas essa prática era voluntária e, consequentemente, destituída da humildade anuladora que é inerente a submissão de um servo a vontade de seu senhor. Foi justamente por isto que Abraão não se circuncidou antes que D’us o obrigasse a fazê-lo, embora já cumprisse outros mandamentos da Torá: dado que a circuncisão, diferentemente dos demais preceitos, só pode ser realizada uma vez, caso se circuncidasse por si mesmo, ele jamais poderia fazê-lo para anteder a uma ordem expressa de D’us.

Assim, circuncidando-se em resposta a um mandamento de D’us claro, Abraão estabeleceu uma relação inteiramente nova com D’us. Eliminando sua própria vontade perante a Dele, ele alcançou um nível de autoanulação a que jamais poderia ter chegado anteriormente. Seu ego podia agora dissolver-se e parar de interpor-se entre D’us, de um lado, e sua mente e coração de outro.

Porém, embora a circuncisão fosse o único preceito da Torá imposto especificamente por D’us a Abraão, Ele já lhe mandara fazer outras coisas antes, como deixar a casa paterna, mudar-se para a Terra de Israel, viajar pela terra e executar os ritos associados a Aliança entre as Metades. Em todas essas ocasiões, Abraão ouviu a voz de D’us. O que havia de especial na circuncisão que o levou a um grau tão alto de abnegação ?

A resposta para esta pergunta pode ser encontrada nas palavras usadas na ordem Divina para Abraão: “ Minha aliança estará em vossa carne”. A circuncisão é um mandamento sem igual porque altera o próprio corpo, tornando-se a carne uma concretização da vontade de D’us. Como vimos, a circuncisão concedeu a Abraão controle sobre seu impulso erótico. Logo, por meio dela, o corpo pode juntar-se a mente na autoanulação diante de D’us, assim deixando também de ser um empecilho na relação do individuo com Ele.

Conforme observamos, Abraão começou a reverter o processo degenerativo que se iniciou com o pecado de Adão e Eva e continuou através das sucessivas gerações. O movimento que ele desencadeou culminaria, sete gerações depois, com a Entrega da Torá no Monte Sinai.

A fim de estabelecer os fundamentos para a transformação do mundo em morada de D’us por meio da Entrega da Torá, Abraão tinha de dar o exemplo com sua própria vida. Nesse contexto, a circuncisão foi o seu “Recebimento da Torá” particular, precedendo, na visão microcósmica, o que mais tarde aconteceria em escala nacional no Monte Sinai. Vivenciando a transição do esforço humano finito para a revelação Divina infinita, ele criou as condições para a formação de um povo cujo propósito seria elevar a realidade acima de suas limitações naturais por meio da manifestação do D’us infinito no mundo finito.

Por ter sido o alicerce da identidade nacional do povo judeu, a transformação pessoal de Abraão tornou-se herança de cada individuo judeu. O desafio de todos nós é aprender de Abraão. Ao longo de sua vida, ele aspirou a ser um veículo cada vez mais transparente da presença Divina no mundo. Contudo, independentemente de quanto tivesse avançado rumo a essa meta, ele sempre soube que ainda havia muito a realizar, que ainda não chegara a autoanulação verdadeira e absoluta. Foi justamente por esse mérito que D’us satisfez o seu desejo e permitiu com o mandamento da circuncisão que ele se libertasse das limitações do ego humano.

Nós também devemos empenhar-nos constantemente para alcançar níveis mais altos de relacionamentos com D’us, sem jamais nos contentarmos com nosso posição espiritual do momento. Além de valorizar nossas conquistas, devemos, ao mesmo tempo, aprender a considerá-las apenas uma versão vaga e imperfeita do que ansiamos por atingir no final. Agindo dessa maneira, podemos estar certos de que D’us corresponderá aos nossos esforços e Se revelará em nossa vida com a mesma intensidade.

A HAFTARÁ DE VAIERÁ ESTA EM : 2° REIS 4 : 1-37