Parashá

Torah

Parashá Vaieshev ( que significa “ele habitou” ) – Gênesis - 37:1 – 40:23

Resumo:

DO quadro que nos é apresentado no inicio da Parashá Vaieshev é de uma perfeição quase idílica: a família de Jacob está completa, todos os seus filhos são leais aos seus ideais, ele acumulou vasta riqueza, voltou a sede patriarcal na Terra Santa e assumiu a liderança. Além disso, estabeleceu sólida reputação, vencendo fisicamente e espiritualmente três adversários – Labão, Esaú e Shechem, e é ao mesmo tempo estimado e temido pela população circudante. Tem-se a impressão de que só lhe resta agora continuar a criar e orientar sua família, até que ela se torne suficientemente grande e apta para constituir um povo pronto para o recebimento da Torá. Até o nome da Parashá, Vaieshev, que significa ele habitou, evoca uma imagem de serenidade pastoril.

Após todo o sofrimento que passou, jacob agradece a D’us esse repouso e pediu que Ele Lhe concedesse tranquilidade permanente, argumentando que, evidentemente, poderia realizar melhor sua missão Divina sem o peso dos inimigos e outras preocupações. Assim, Jacob rogou sossego a D’us pela mesma razão por que ansiamos pelo futuro messiânico: livrar-se de todos os impedimentos para o cumprimento mais pleno possível da vontade Divina. De fato, D’us aprovou o desejo de Jacob e atendeu a sua súplica, pelo menos até certo ponto: permitiu que ele desfrutasse de relativa paz e bem estar durante nove anos inteiros após sua chegada a Hebron.

Porém, como logo descobrimos, sob a superfície serena formava-se uma perniciosa rivalidade entre irmãos que, quando emergisse, ameaçaria destruir a família e malograr toda esperança de que esta fraternidade um dia viesse a ser a portadora da visão dos patriarcas. Primeiramente, José foi vendido como escravo pelos irmãos; depois, Judá separou-se deles para estabelecer uma aliança fora da família. O próprio Jacob ficou inconsolável com a perda de José. Portanto, o restante da Parashá, ou seja, tudo menos o primeiro versículo – parece não refletir, absolutamente, a tranquilidade sugerida pelo seu nome.

A fim de compreender essa possível contradição, lembremos que Jacob sabia que, para concretizar a missão Divina de tornar o mundo o lar de D’us, ele teria de superar o poder metafisico de Esaú, e José reunia as qualidades espirituais que facilitariam essa tarefa. Consequentemente, Jacob via José como seu sucessor natural. Por isso, embora as seis ultimas parashiot do Gênesis sejam dedicadas a Jacob, as últimas quatro dessas seis descrevem detalhadamente como José satisfez as expectativas que o pai depositava nele, exercendo a liderança de que a geração seguinte necessitava.

Contudo, se Jacob preferiu concentrar-se nas qualidades espirituais interiores de José, seus irmãos não puderam deixar de notar que ele tinha inclinação para um comportamento preocupante, mostrando uma arrogância e vaidade que, assustadoramente, recordavam Esaú !

O fato de que seu pai o tratava abertamente como superior a eles, como se não tomasse conhecimento de seus defeitos, só reforçava a associação que faziam de José e Esaú: afinal, o pai de Esaú, Isaac, também fora enganado e pensava que seu filho predileto fosse o legitimo herdeiro, apesar de sua conduta exterior.

Os irmãos, portanto, concluíram que se manifestava agora, na terceira geração da família de Abraão, o mesmo fenômeno que ocorrera nas duas primeiras, quando, pelo bem da causa, filhos tiveram que ser deserdados. Ao invés de ser o antidoto de Esaú, José seria o novo Esaú, e precisava ser eliminado.

Uma vez que os irmãos estavam firmemente convictos de que José era inapto para liderar, a providencia Divina teve de arranjar os acontecimentos para que eles se persuadissem do contrário, e então principiou a longa odisseia de José no Egito.

O catalizador que, sem saber, mudou o rumo dos eventos nesse momento decisivo foi o quarto filho de Jacob, Judá. Ele convenceu os irmãos a vender José a uma caravana que passava, em vez de matá-lo, e assim transformou uma situação que ameaçava ser o fim de tudo em um novo começo, desencadeando o processo que acabaria levando ao reencontro e reconciliação dos irmãos com José, a subsequente ascensão legitima de José a posição de líder da família e a realização do desejo de Jacob de servir a D’us em paz e com serenidade.

Isso explica por que a Torá interrompe a narrativa da história de José com um interlúdio que descreve a aliança de negócios extrafamiliar de Judá. Por meio dessa aliança, ele gerou Péretz, ancestral do Rei David, que é, por sua vez, ancestral do Messias. Judá surge assim como propiciador não só da redenção da família de Jacob, mas também da redenção final do povo judeu inteiro e da humanidade em geral.

Rogando a D’us tranquilidade necessária para cumprir da melhor maneira sua missão Divina, Jacob simplesmente pedia o que merecia por ter passado nos testes com Labão, Esaú e Shechem; e, como dissemos, D’us concedeu-lhe essa calma temporariamente. Depois, porém, Ele quis dar a Jacob uma tranquilidade ainda mais profunda, que lhe permitisse concretizar a missão Divina de modo ainda mais efetivo. Essa serenidade transcenderia a que ele ganhara em virtude de seus próprios esforços e seria um antegosto da era messiânica. Para alcançar esse nível de paz e contentamento, Jacob teve de passar por outra prova. Ele nunca enfrentara nada igual.

O denominador comum de seus testes anteriores era que cada um representava uma luta contra alguma forma de mal. Testes dessa natureza podem realmente ser difíceis, mas pelo menos nos dão a satisfação de saber que realizamos algo tangível quando os superamos. Por outro lado, o teste de sofrimento aparentemente sem sentido não oferece tal satisfação. Foi justamente a esse tipo de prova que D’us então submeteu Jacob, com o suplicio de perder José e nutrir uma dúvida prolongada e debilitante quanto ao futuro da obra a que dedicara sua vida. Suportando essa dor, Jacob refinou-se a ponto de tornar-se mais tarde ( na Parashá Vaiechi ) um recipiente adequado da dádiva de Divina de paz e contentamento infinitamente profundos.

Logo, a primeira lição que aprendemos e podemos extrair desta Parashá é a consciência de que a mão da providencia Divina esta sempre orquestrando os acontecimentos, ainda que as vezes o faça ocultamente. Por mais desesperadora que pareça a situação, a solução pode estar muito próxima, e é bem possível que o mecanismo da redenção já tenha sido acionado.

Em segundo lugar, vemos o quanto é importante enxergar além das vicissitudes do presente e ansiar pela redenção, exatamente como vemos Jacob fazer no inicio desta Parashá. É instrutivo notar que D’us não tentou colocar Jacob no caminho que conduziria a verdadeira tranquilidade messiânica até que ele mesmo o pedisse especificamente. Além disso, foi o seu desejo de redenção messiânica que pôs em ação todo o processo que por fim levaria precisamente a essa Redenção.

Observadores astutos podem respeitosamente alegar nesta altura que prefeririam renunciar a recompensa da verdadeira paz e contentamento se o preço a pagar fosse um sofrimento prolongado e sem sentido semelhante ao de Jacob. No entanto, dado que já sofremos tanto no longo da história, particularmente nos últimos anos, esta claro que nos refinamos o suficiente para merecer a Redenção final e não termos que ser submetidos a nenhuma dor adicional. Tudo que nos resta a fazer é suplicar a D’us com sinceridade e assertividade, e Ele com certeza responderá.

A HAFTARÁ DE VAIESHEV ESTA EM : AMÓS 2:6 – 3:8